Eles Ainda Andam a Voar por Todo o Lado
Terça-feira, 01 de Fevereiro de 2005

A ideia de que os dinossauros ainda estão entre nós surgiu no século XIX, mas só no final do século XX ficou provada

Costuma dizer-se que uma coisa só acontecerá quando as galinhas tiverem dentes. Só que já tiveram mesmo. Em vez do bico das aves actuais, os fósseis das aves primitivas, os antepassados longínquos das galinhas, exibem dentaduras, uma característica dos répteis. Mas se esta ideia pode ser estranha, mais estranho soa quando se diz que as aves são dinossauros. Pois são.

Com a descoberta, em 1861, da ave mais antiga, o "Archaeopteryx", com 150 milhões de anos, os cientistas começaram a estabelecer certas ligações. Era uma ave com características de réptil. Tinha também uma cauda ossuda e comprida.

Este fóssil seria reconhecido pelos defensores da teoria da evolução por selecção natural, publicada dois anos antes da sua descoberta por Charles Darwin, no livro "A Origem das Espécies", como o elo perdido entre as aves e os seus antepassados - explica o paleontólogo Carlos Marques da Silva, da Faculdade de Ciências de Lisboa, num guia que elaborou para os professores prepararem as visitas de estudo com os seus alunos (vai estar disponível em http://www.mnhn.ul.pt ).

Em 1868, Thomas Huxley, fervoroso defensor da teoria de Darwin, sublinhava as características de réptil do "Archaeopteryx". "A ave mais antiga revela maior semelhança com a estrutura dos répteis do que com qualquer das aves actuais", dizia. Questionava mesmo: "Haverá fósseis de répteis mais parecidos com as aves do que os répteis actuais?"

Mais tarde, nos anos 70 do século XIX, Huxley admitia uma ligação entre o "Archaeopteryx" e os fósseis recém-descobertos de uns répteis, os dinossauros. Sugeriu que o carnívoro bípede "Compsognathus" era mais parecido com as aves, e afirmou que era o elo perdido entre os dois.

Mas o parentesco próximo não era a visão predominante. No início do século XX, os cientistas inclinavam-se para um parentesco entre as aves e um grupo primitivo de répteis do Triásico (período entre há 230 e 190 milhões de anos), os tecodontes. No livro "A Origem das Aves", de 1926, o dinamarquês Gerhard Heilmann concluía que o esqueleto do "Archaeopteryx era o de um réptil, e avançava que os antepassados das aves teriam sido os tecodontes e não os dinossauros.

"Os tecodontes eram vistos como os antepassados das aves, dos pterossáurios e dos dinossáurios. Ou seja, aves e dinossáurios tinham um parentesco afastado, partilhando um antepassado comum", explica Marques da Silva.

As parecenças entre dinossauros e aves voltaram à baila em 1969, quando o paleontólogo americano John Ostrom descobriu o "Deinonychus". Era um dinossauro predador, cujos ossos do pulso e da anca eram parecidos com os do "Archaeopteryx". "Ostrom sugeriu que as aves descendiam dos dinossáurios. Mas o 'Deinonychus' não tinha penas e muitos mantiveram-se cépticos."

As provas chinesas

As provas arrasadoras viriam da China, nos anos 90. Jazidas na província de Liaoning conservaram uma fauna diversa, desde aves a dinossauros com penas. Há cerca de 125 milhões de anos, ali havia montes e lagos repletos de vida. De tempos a tempos, erupções vulcânicas lançavam no ar cinzas e gases venenosos, que matavam os seres vivos. Os corpos do animais caíam nos lagos e eram cobertos por cinzas, pelo que ficaram preservados até hoje.

A descoberta dos dinossauros com plumas e penas, lado a lado com aves em diferentes estádios evolutivos, veio preencher as lacunas. "Essa fauna em conjunto permite estabelecer a ligação entre dinossáurios e aves, em que o fio condutor são as penas", diz Marques da Silva. "Aqueles fósseis permitem provar, sem sombra de dúvida, que as aves são dinossáurios."

Assim, os antepassados das aves eram dinossauros carnívoros bípedes que desenvolveram penas e tinham pulsos que giravam para cima, para baixo e horizontalmente - movimentos essenciais ao bater das asas das aves.

Mas estes dinossauros com plumas ainda não eram aves. As penas já não definem onde acaba um dinossauro e começa uma ave, mas, antes, certas características nos ossos. Também não foram as penas que fizeram alguns dinossauros levantar voo; foram essas alterações nos membros anteriores. O uso das penas no voo desenvolveu-se secundariamente, depois de terem servido para aquecer os bichos, para camuflagem ou exibição.

Como levantaram voo é outra questão, e há duas teorias. Uma diz que foi de baixo para cima, ou do solo para os céus: para fugirem aos predadores, certos dinossauros bípedes corriam encostas acima, batendo as patas dianteiras, para ajudar na aderência ao solo. Outra teoria diz que foi de cima para baixo, ou das árvores para o solo: certos dinossauros começaram a planar e acabaram por voar.

Seja como for, a visão que tínhamos das aves e dinossauros mudou para sempre. Nem todos morreram por causa de um meteorito, há 65 milhões de anos. Sobreviveram os que eram aves, e estão por aí em todo o lado. Uns voam, outros não, como as galinhas, e podemos mesmo saborear alguns. T.F.

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